Um antigo provérbio latino dizia medicus curat, Deus sanat, isto é, o médico cura, Deus sara. Se o médico cura, ainda haverá lugar para Deus sarar?
A busca da etimologia da palavra cura, pode nos ajudar a entender essa citação datada de longo período. Curar, em latim significa literalmente “cuidar”. Diante do conhecimento etimológico, podemos entender que em tempos passados onde predominava-se o conceito hipocrático de cura-cuidado e o médico era um mero espectador da evolução natural da enfermidade, há relevância do referido provérbio. No entanto, é sabido que o mesmo não se aplica em dias contemporâneos.
O conceito de cura no que se refere à saúde e a doença, o verbo curar/cuidar, em sua etimologia, é bastante apropriado, pois cuidar da saúde, por exemplo, sugere atenção com a saúde antes da instalação da doença. Por outro lado, cuidar da doença, ou do doente, significa ter cuidado para a saúde não se deteriorar ou o doente não piorar. Essas duas vertentes mostram que o cuidar/curar podem manter seus conceitos para diferentes níveis de atenção à saúde ao qual se emprega. O conhecimento moderno aí está para esclarecer que, em sua maioria, a saúde se recupera com os cuidados que se prestam ao enfermo, e que a doença é impedida com os cuidados que se prestam à saúde. Nesse sentido, tanto a remediação como a prevenção são formas de cuidar e/ou de curar.
Por saber que o resultado do cuidado é na maioria das vezes o retrocesso da doença e a melhora do organismo, curar, curar-se, passou, por metonímia, a significar sarar. "Eu me “curei" atualmente não quer dizer "eu me cuidei", mas "eu sarei". Quando se diz que o médico cura, geralmente se entende que ele consegue fazer a pessoa sarar; ou que o remédio cura porque contribui para que o organismo reaja e se recupere. Partindo-se desse pressuposto e na tentativa de buscar um melhor entendimento do conceito de cura pode-se tentar descrever, e não definir, que a cura é percebida como cuidado e como resultado desse cuidado, tem-se a recuperação da saúde.
Sheila Nascimento
Fisioterapeuta
ALMEIDA FILHO, N. JUCÁ, V. Atos de saúde/doença: atenção, cuidado, tratamento, cura. Capítulo IX.
PAIVA, GJ. Religião, enfrentamento e cura: perspectivas psicológicas. Estudos de Psicologia. 2007; 24 (1): 99-104.
Excelente colocação! Elucida, exemplificando, a polissemia construída historicamente em torno do conceito de cura, a partir da retomada etimológica deste conceito. Polissemia esta apresentada no capítulo-eixo de discussão como parte da conjuntura contemporânea que põe em questão o uso e as atribuições do termo “cura”, bem como a incorporação de significantes correlatos a ele, a saber: remissão, recuperação, reabilitação, compensação e estabilização, no intuito de contemplar as “especificidades e limites dos avanços diagnósticos e terapêuticos” das ciências envolvidas com o complexo saúde-doença.
ResponderExcluirDalva Daniele Vivas
Fonoaudióloga