segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Notas para Pensar a Formação Clínica do Nutricionista na Perspectiva da Saúde Coletiva

O cuidado na saúde, revestido por uma significação profunda, para além do conjunto de recursos e medidas terapêuticas, envolve assunção de atitudes e comportamentos por parte dos profissionais de saúde – sujeitos da ação, que, para os propósitos deste estudo, são tomados como submersos na teia da cultura. Sujeitos históricos, da relação dialógica, da capacidade de interação, comunicação, interpretação e compreensão – a partir da sua leitura de mundo, de seu ‘olhar’, sobre o entorno social. O trabalho desenvolvido a partir do método qualitativo tem por objetivo uma investigação sobre as bases teóricas, históricas e sócio-culturais que influenciam a formação do nutricionista na área clínica e os discursos aí produzidos, através da observação participante, diários de campo, entrevistas em profundidade e revisão sistemática da literatura. A sua origem em contexto hospitalar, a partir da divisão social do trabalho médico, teve inspirações no modelo explicativo e terapêutico do sistema médico ocidental. As racionalidades subjacentes à medicina clínica-curativa e prescritiva foram norteadoras da formação clínica em nutrição no contexto brasileiro. Tendo por comparação as análises realizadas sobre o modelo que sustenta o campo biomédico, hegemônico no setor saúde, percebe-se também a sua insuficiência e lacunas no entendimento e resolução dos fenômenos de nutrição. Tal apreensão clama por uma “outra prática clínica” e “outra formação”: uma práxis que enxergue a realidade dos sujeitos nela imersos – “encharcada de sentidos”, instigando postura ética nos atos de nutrição em saúde. Assume-se a clínica como espaço privilegiado de aprendizado da saúde coletiva, onde as narrativas de histórias de vida, experiências de saúde-doença-cuidado e relatos dos eventos relacionados à alimentação e nutrição, contribuem para a percepção dos contextos sócio-culturais, das dimensões do sujeito e das formas de construção, e enfrentamento dos problemas nutricionais.


Resumo apresentado no II Word Congress of Public Health Nutrition and I Latin American Congress of Community Nutrition (2010)

Autoras: FONTES, Gardênia Abreu Vieira; LORDÃO, Manuela Barreto de Jesus; BARRETTO, Marília Malaquías de S.; FREITAS, Maria do Carmo; SAMPAIO, Lílian Ramos.

REFERÊNCIAS:

AYRES, J.R. De C. M. Sujeito, intersubjetividade e práticas de saúde. Ciência e Saúde Coletiva, 6 (1): 63-72, 2001.
AYRES, J.R. De C.M. Cuidado e reconstrução das práticas de saúde. Interface (Botucatu) [online], vol.8, n.14, pp. 73-92, 2004.
CAPRARA, A. Uma abordagem hermenêutica da relação saúde-doença. Cadernos de Saúde Pública 19(4): 923-931, 2003.
CAPRARA, A. RANCO, A. L. S. A relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica. Cadernos de Saúde Pública. 15(3): 647-654, 1999.
DESLANDES, S. F. Análise do discurso oficial sobre humanização da assistência hospitalar. Ciência e Saúde Coletiva 9(1): 7-14, 2004.
DESLANDES, S. F. A humanização e construção política do lugar do sujeito no processo comunicacional. Ciência e Saúde Coletiva 9(1): 25-29, 2004.
FOUCAULT, M. O nascimento da clínica. México, 1980.
MERHY, E. E. Um ensaio sobre o médico e suas valises tecnológicas: contribuições para compreender as reestruturações produtivas do setor saúde. Interface: comunicação, saúde, educação. 6: 109-116, 2000.
WHO, Obesity Preventing and managing the Global Epidemic. Report of a WHO Consultation on Obesity. Geneva, WHO/NUT/NCD, 1998.

Manuela Lordão

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Intensificação de cuidados em Saúde Mental.

Uma breve discussão do processo de cuidado em Saúde Mental (extrato do artigo "Intensificação de cuidados em Saúde Mental: alcances a partir de um caso clínico", apresentado no V Congresso Internacional de Saúde Mental - 2010).
[...] o processo de cuidados não se esgota, ele é contínuo e se transforma de acordo com a relação existente entre os atores envolvidos e as demandas provenientes.
As relações de cuidado, no entanto, não são tão singulares e simples. Elas se co-relacionam ao vínculo que se estabelece entre os seres. Nesse contexto, outros elementos compõem as relações de cuidado, como a disponibilidade, o interesse, a necessidade e a permissividade.
O cuidar assume suas formas possíveis somente quando a experiência do desejo, da alteridade e a questão do compartilhamento encontram-se esboçadas ainda que de modo preliminar. O cuidar implica compartilhar experiências individuais e sociais (ESTELLITA-LINS, OLIVEIRA & COUTINHO, 2009, p.211). 

Uma atuação clínica e política pautada nesses princípios possibilita alcances imprevisíveis. Ao saber de onde partimos e qual a nossa meta, vivenciar o percurso só depende de estar disponível a ele, a construir junto. Pois, acredita-se que, intensificar os cuidados em Saúde Mental é antes de tudo, se dispor a este desafio. A relação neste contexto é essencial, mas não será estruturada com base na noção de vínculo, e sim de um estado em que o terapeuta se adapta às necessidades do paciente e permite que ele o utilize como objeto subjetivo” (Winnicott, 1954, 1955, 1975 apud FURTADO & MIRANDA, 2006, p.515).
Geisa Bastos Melo - psicóloga, terapeuta junguiana, atua em CAPS e no Inst. de Cegos da Bahia.
Referências Bibliográficas:

Brasil. Ministério da Saúde. Legislação em saúde mental 1999-2001– 2. ed. Brasília: 2001( acesso em 20/03/2010);

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Mental em Dados – 6, ano IV, nº 6. Informativo eletrônico. Brasília: junho de 2009 (acesso em 20/03/2010);

ESTELLITA –LINS, Carlos; OLIVEIRA, Verônica M.; COUTINHO, Maria F. Clínica ampliada em saúde mental: cuidar e suposição de saber em acompanhamento terapêutico. Ciência e Saúde Coletiva, n.14, v.01, 2009, p.205-215;

FURTADO, Juarez P.; MIRANDA, Lílian. O dispositivo “técnicos de referência” nos equipamentos substitutivos em saúde mental e o uso da psicanálise winnicottiana. Rev. Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, ano IX, n.3, 2006, p.508-524;

MIELKE, Fernanda B; KANTORSKI, Luciane Prado; JARDIM, Vanda Maria da R.; OLSCHOWSKY, Agnes.;  MACHADO, Marlene S.  O cuidado em saúde mental no CAPS no entendimento dos profissionais. Ciência e Saúde Coletiva, n.14, v.01, 2009, p.159-164;

YASUI, Sílvio. Rupturas e encontros: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Tese de Doutorado. Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz: Rio de Janeiro, 2006, 208 p.




domingo, 6 de novembro de 2011

Terapia Ocupacional, Tratamento e Cura

Segundo a visão, pespectiva e o histórico da Terapia Ocupacional, tal profissão sempre trabalhou com  a não possibilidade de cura, no sentido restrito da palavra. Muitas vezes só atuou em determinadas patologias devido a essa impossibilidade, como: Alzheimer e Parkinson. Segundo minha percepção sempre estivemos envolvidos e focados no processo de tratamento. Vejamos o que expõe Drumond & Rezende:

  De uma Maneira geral, o processo  de Terapia Ocupacional pode ser caracterizado em duas etapas ou fases. Na primeira fase, o terapeuta usa diferentes formas, instrumentação e meios para descrever e informar-se sobre o impacto de determinada condição de saúde no perfil ocupacional do cliente. Nessa fase de descriçãoe caracterização do problema, são definidas as metas ou desfechos terapêuticos os quais deverão se tornar o foco da ação terapêutica do profissional. Com base  nas tendências atuais que fundamentam a Terapia Ocupacional, citadas anteriormente, essas metas devem ser funcionais e centradas na ocupação, e devem também  ser definidas com a participação direta do cliente.
  A segunda fase de processo da Terapia Ocupacional é definida como fase de resolução do(s) problema(s) identificado(s) na etapa anterior. Nesse estágio, o terapeuta usa sua bagagem clínica e teórica e seu pensamento clínico para identificar os fatores limitantes das metas funcionais e selecionar estratégias adequadas que possam abodar diretamente esses fatores limitantes do(s) problema(s) definido(s) na fase anterior.

Desta forma chegar a um desfecho muitas vezes não significa curar mais sim adaptar, habilitar, reentroduzir o cliente nas suas atividades funcionais.

Cibele Nascimento dos Santos
Terapeuta Ocupacional

Referência:Intervenções da Terapia Ocupacional/Adriana França Drummond, Márcia Bastos Rezende, (0rganizadoras) Belo Horizonte Editora UFMG, 2008.