quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Um novo olhar sobre saúde e doença
O Capítulo IX Atos de Saúde:Tratamento, Cura e Conceitos Correlatos que é o nosso texto-base, nos traz um novo olhar sobre o conceito de cura e traz uma cronologia de fatos históricos que de certa forma implicam em questões éticas e morais do cuidado. No conceito hipocrático de cura-cuidado, percebe-se que além da dimensão biológica, existem outras dimensões que dizem respeito ao SER HUMANO, entre elas a psíquico-afetiva e espiritual.
Em vários momentos Foucault dialoga com Canguilhem quando diz que "[...] assim como a doença está inscrita no interior das virtualidades fisiológicas normais, a possibilidade da cura está inscrita no interior dos processos da doença".Ou seja, existe uma relação entre o normal e o patológico e no campo da saúde mental é visível.A saúde e doença se interpenetram e a saúde pode ser tomada como conceito.
Dentre os conceitos correlatos( remissão, recuperação, reabilitação, compensação e estabilização) que foram abordados no capítulo, acrescento a noção de neutralidade benevolente, que envolve a problemática da cura.Onde a neutralidade diz respeito as necessidades e os desejos do outro e a a beneficência refere-se ao dever de ajudar aos outros, de fazer ou promover o bem a favor de seus interesses. Reconhecer o valor moral do da pessoa humana, considerando que o ato de maximizar o bem do outro, simultaneamente inviabiliza os riscos potenciais.
Na saúde mental, faz-se necessário, valorizar tanto a qualidade psíquica, ou seja, a consciência que o paciente tem sobre a doença quanto a estrutura do mundo patológico. Percebe-se a importância da contribuição de outros profissionais nessa discussão, bem como, resgatar as diferentes práticas de cura existentes ao longo da história brasileira, como exemplo, curandeiros, boticários, cirurgiões-barbeiros e parteiras. A terapêutica religiosa constitui assim uma das alternativas de cura, cuja adesão por parte de seus seguidores é influenciada, entre outros fatores, por experiências individuais ou coletivas.
Enfermeira Laudicéia da Paixão Santos
Uma visão sucinta e particular baseado na temática “Atos de saúde
O estudo sobre a
temática “Atos de saúde” serviu de base para reflexão dos elementos envolvidos
no processo de saúde doença. A abordagem sobre cura e conceitos correlatos me
fez repensar sobre os modos de enfrentamento das enfermidades; rediscutir os
modos de se produzir saúde, dentre tantos outros saberes entendidos de forma
equívocas ou insuficientes na ciência da saúde.
O texto aborda
bastante sobre os sentidos da cura nas varias representações sócias, critica a
base do seu conceito para o senso comum, e embora não defina claramente o
sentido da cura, fiquei com a idéia de controle ou eliminação da patologia. Ligado
ao aspecto da importância do cuidado, atenção e assistência na trajetória do
tratamento. O que mais me chamou a atenção foi à abordagem do sentido da cura
num campo onde suas perspectivas são quase nulas... O campo da saúde mental.
Isso abriu um espaço para que eu pudesse repensar sobre os mecanismos
envolvidos no processo de adoecimento em termos psicológicos. Numa intriga de
que estamos falando de pacientes que fisicamente e em termos orgânicos e
fisiológicos podem apresentar- se normais, mas com seu psicológico abalado ou
desregulado. Uma brecha para falar sobre o principio da integralidade e
abordagem holística do cuidado.
Às vezes cheguei
até fazer confusão me questionando sobre o termo saúde mental. Pois caia na
contradição do conceito de que talvez não pudesse existir essa tal saúde, uma
vez que a cura não fosse possível, mas logo me lembrei de uma abordagem feita
em sala pelo professor Naomar, que dizia: haja visto pessoas que se intitulem
estando com saúde, embora apresente
alguma patologia e vice versa.
Entendida a
proposta dos autores, em falar sobre saúde mental, pela sua formação e resgate
da pesquisa etnográfica aplicada em dado momento. A minha critica é justamente
nesse sentido, pois se falou muito sobre cura, remissão, estabilização em
termos psicóticos, abordando pouco sobre seus outros correlatos: atenção,
cuidado, assistência, tratamento, também tão importante principalmente para
patologias que se dizem fora de perspectivas terapêuticas, reconhecendo o
importante significado das ações de cuidar para nós da área de enfermagem.
Joseane borges Nunes
Enfermeira.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
A construção coletiva que ampliou nossa concepção de saúde
Após meses na disciplina e se dedicando a criação desse blog, sinto que é importante abrir espaço para compartilhar de que modo esse coletivo ampliou nossas concepções sobre saúde e de que modo essa construção chegou para cada um de nós.
Para mim, a
experiência de estar neste grupo foi muito rica e ajudou a estar na disciplina de
uma maneira mais inteira. Entrei no grupo pouco tempo depois que a equipe
estava formada, mas demorei um pouco a me ambientar à lógica de construção de
um blog. Fiquei no início um pouco receosa com o número de pessoas no grupo, mas
com o passar do tempo percebi que essa foi uma maneira natural e maravilhosa de
realmente conhecer as pessoas. Além disso, com dedicação foi possível superar as
barreira e em conjunto transformamos uma aparente dificuldade em recurso, por
meio da participação rica de profissionais de áreas variadas no campo da saúde.
Em nossas
reuniões semanais antes da aula pudemos ir nos aproximando, trocando idéias,
ouvindo com respeito e encontrando um espaço que favoreceu a expressão.
Agradeço a cada um de vocês e em especial a Dalva, que não só deu o primeiro
passo na construção do blog, mas que com sua iniciativa e criatividade também
exerceu papel importante na monitoria do trabalho. Então colegas... as portas
estão abertas!!! É só entrar e postar seu comentário sobre essa experiência.
Grande abraço, Luane
Monitora
A cura na perspectiva Psicanalítica...
A análise produz efeitos de diminuição, e até de desaparecimento do sofrimento do paciente, no que tange, aos efeitos curativos da análise. Cabe ao analista ‘esperar’ uma melhora nas posições subjetivas e objetivas do analisando. De acordo com Nasio (1999) a cura não é um conceito, nem um objetivo, e nem mesmo um critério, o que equivale a não ceder diante da influência do modelo médico, discordando assim da primeira frase citada que trás uma ‘fórmula’ para o conceito cura.
A cura no analisando
A cura no analisando
Lacan (1974) coloca que "a cura é uma demanda que parte da voz do sofredor, de alguém que sofre por seu próprio corpo ou por seu pensamento". Faz-se indispensável que o analisando se queixe dos seus sintomas e aspire á cura. Onde essa demanda está revestida por uma transferência.
"A partir do momento em que os médicos reconheceram claramente a importância do estado psíquico na cura, tiveram a idéia de não deixar mais ao doente o cuidado de decidir o grau da sua disponibilidade psíquica, mas, pelo contrário, arrancar-lhe deliberadamente o estado psíquico favorável, graças a meios apropriados. É com essa tentativa que se inicia o tratamento psíquico "moderno" (FREUD, 1890).
O que mais pra frente Lacan irá entender como "retificação subjetiva".
A relação do psicanalista com a cura
A relação do psicanalista com a cura
Opondo-se a visão do médico que quer suprimir os sintomas, o psicanalista irá fazer uso dos mesmos como uma via de entrada indireta, a fim de trabalhar para dissipar a dor penosa e inconsciente. Pois, fazer desaparecer os sintomas é simplesmente fazer com que os sonhos desaparecessem com que as vozes inconscientes se calassem.
O trecho postado
apresenta outra visão para o tema abordado em aula, e no texto base discutido –
e que faz parte dos “atos de saúde” proporcionando aos leitores uma aproximação
com outras ‘correntes’. É relevante aqui pontuar que ambos acabam por demarcar
que a cura é um conceito singular para o sujeito, e que equipes de saúde
precisam mudar o seu olhar perante a problemática em questão. No entanto,
precisamos ter cautela ao discutir esse
construto que compreende noções empregadas para designar práticas de saúde em
geral, como: ‘atenção’, ‘assistência’, ‘cuidado’, ‘intervenção’, ‘tratamento’ e
‘cura’ na perspectiva teórica apresentada.
REFERÊNCIA:
Nasio, Juan-David. Como trabalha um psicanalista? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.
REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES:
Cf. "Psychanalyse et guérison", documento da jornada de estudos de outubro de 1987 da Escola Propedêutica do Conhecimento do Inconsciente (publicação interna).
Freud, "Traitement psychique (traitement d’âmer)" (1890), in Résultats, idées, problems, op.cit., p.12.
J. Lacan, Télevision, Paris, Seuil, 1974, p.17.
Manuela Lordão
Psicóloga
A cura
“Apesar de tudo, a cura sempre tem um caráter de benefício [bien-fait] por acréscimo – como afirmei, para escândalo de alguns – mas o mecanismo (da análise) não é orientado para a cura como finalidade. Não digo nada que Freud já não tenha formulado poderosamente: toda inflexão em direção à cura como finalidade – fazendo da análise um meio puro e simples para um fim preciso – dá algo que estaria ligado ao meio mais curto e que só pode falsear a análise”.
A respectiva citação assume uma conduta de complementariedade do tema que implica desconstruir a perspectiva biomédica segundo a
qual a medicina seria suposta detentora de uma verdade absoluta sobre a doença
e os princípios curativos. E vai um pouco além de conceituações, como:
"A idéia de uma cura que não significa retorno à normalidade
parece extremamente fértil. Afinal, a experiência de adoecimento sempre
constitui um marco (positivo ou negativo) na história de vida de qualquer
sujeito".
REFERÊNCIA:
J. Lacan, intervenção na sessão de 5 de fevereiro de 1952 da Sociedade Francesa de Psicanálise: “Le rendez-vous avec le psychanalyste”, in La Psychanalyse, nº4, Les psychoses, PUF, 1958, p.309.
Manuela Lordão
Psicóloga
domingo, 11 de dezembro de 2011
Mais uma visão a respeito de doença
Quando nos propomos a discutir sobre os conceitos do processo de saúde e doença percebe-se que o assunto é vasto assim como nossas concepções e nossa cultura. Desta forma sempre podemos contribuir com algo mais. Em mais uma leitura rápida encontrei a definição dada por Rezende e Drummond 2008, sobre a noção de doença:
A noção de doença/desvio é determinada historicamente e, também, definida e diferenciada no contexto sociocultural. O modelo manicomial, que delegou ao hospital psiquiátrico e aos médicos a função de “tratamento” dos doentes mentais, foi construído, no mundo ocidental, durante, pelo menos, duzentos anos e uma redefinição do que seja “doença mental”, iluminada por novas concepções teóricas e práticas, não poderá ser realizada sem outra forma de compreensão dessa noção, que, como qualquer outra mudança social, é processual e, frequentemente, lenta.
Intervenções da Terapia Ocupacional/Adriana de frança Drummond, Márcia Bastos Rezende,(Organizadoras)-Belo Horizonte; Editora UFMG, 2008.
Cibele Nascimento dos Santos-Terapeuta Ocupacional
Cura....Pensando no indivíduo.
Concordo com vocês Caroline e Joankley, quando mencionam da importância dos profissionais de saúde terem conhecimento do histórico de vida de cada paciente, o que pode possibilitar a facilitação dos processos de cura das doenças, pois muitos processos patológicos estão associados as questões psicológicas e isso implica em conhecer a particularidade de cada indivíduo.
Fabricio Soares
Biólogo
Cura: Um conceito Individual?
Caroline Guerreiro, em tela
comungo a sua idéia, em face da necessidade de colocar o portador da
enfermidade como protagonista direto no processo de cura. Os profissionais de
saúde, de uma forma geral, têm atuado como protagonista exclusivo no processo
de cura, deixando de lado, os processos psicológicos, preocupando-se apenas com
o patológico.
Considero que o processo de cura
vai muito além do que a reabilitação, e/ou propostas terapêuticas, requer um
olhar mais minucioso a cerca do indivíduo, enquanto um ser singular, portador
de crenças, sentimentos, expectativas, anseios, dúvidas, etc. De uma forma
geral, ouso a dizer que o processo de cura vem sendo imposto, talvez aquilo que
os profissionais de saúde consideram cura, para o portador da enfermidade não
seja de fato.
Joankley Costa- Enfermeiro
sábado, 10 de dezembro de 2011
Cura: um conceito individual?
O sistema moderno de saúde vem buscando novas possibilidades de intervenção terapêutica a fim de reverter processos patológicos instalados no corpo considerado doente.
As patologias provocam limitações funcionais e/ou psicológicas que atingem de forma diferenciada a vida social e pessoal de cada indivíduo. Dessa forma, o processo de cura deve ser considerado um objetivo específico a cada paciente. Mais do que a opinião do profissional de saúde, a cura deve ser observada pelo próprio paciente na medida em que ele supera suas limitações e retorna ao convívio social e às atividades de seu interesse.
É importante conhecer a realidade de cada indivíduo, entender o impacto da enfermidade em sua vida e definir, junto a este, os objetivos do tratamento para que sejam definidas as condutas terapêuticas conforme suas expectativas.
O texto poderia enfatizar mais o conceito de Cura sob a visão do portador da enfermidade, para o qual o olhar do profissional de saúde deve dirigir-se.
Caroline Guerreiro
Fisioterapeuta
As patologias provocam limitações funcionais e/ou psicológicas que atingem de forma diferenciada a vida social e pessoal de cada indivíduo. Dessa forma, o processo de cura deve ser considerado um objetivo específico a cada paciente. Mais do que a opinião do profissional de saúde, a cura deve ser observada pelo próprio paciente na medida em que ele supera suas limitações e retorna ao convívio social e às atividades de seu interesse.
É importante conhecer a realidade de cada indivíduo, entender o impacto da enfermidade em sua vida e definir, junto a este, os objetivos do tratamento para que sejam definidas as condutas terapêuticas conforme suas expectativas.
O texto poderia enfatizar mais o conceito de Cura sob a visão do portador da enfermidade, para o qual o olhar do profissional de saúde deve dirigir-se.
Caroline Guerreiro
Fisioterapeuta
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Como a Cura se configura entre os Distúrbios da Comunicação
Os termos "cura" e "reabilitação" são comumente utilizados como sinônimos na prática fonoaudiológica, sobretudo na prática terapêutica, mais atrelada ao percurso doença-saúde que a sua antecessora, a prática diagnóstica, aluna aplicada na investigação e detecção dos processos ou dos percursos de saúde-doença.
Por vezes, o termo "reabilitação" é aplicado com outra conotação, para explicar não um estado, como quando sinônimo de "cura", mas para denominar um processo. Assim, o significante "reabilitação" agrega um cunho de dinamicidade ao seu significado.
O conceito de cura permeia diálogos na ação e no entendimento fonoaudiológico daquilo que se compreende como "distúrbio da comunicação", e se configura a partir da distinção entre o "normal" e o "patológico" que tangem o seu objeto de estudo, a comunicação humana. Ainda, se este objeto se desloca da comunicação para o ser que se comunica, modifica-se tal distinção, e atribuem-se novas concepções para "cura".
Um distúrbio é caracterizado pela presença de um comportamento não esperado para um determinado nível maturacional do desenvolvimento da linguagem ou na ausência de comportamentos esperados para determinados estágios ou etapas deste desenvolvimento. Ao concebermos níveis maturacionais e etapas de desenvolvimento, estamos delimitando o "normal" e constituindo-o a partir de perspectivas socioculturais próprias, atribuindo, como conseqüência, ao "patológico" os comportamentos que não se encaixam dentro desta perspectiva. Concebemos saúde, doença e cura, por sua vez, a partir de limites que, de fato, não contemplam as variáveis dos sujeitos e da sua linguagem. Tantos são os comportamentos comunicativos ditos "normais", e tantas são as formas e intenções comunicativas quantos são os sujeitos.
"Em outras palavras, os conceitos clínicos carecem e merecem uma revisão. O conceito de "cura", por exemplo, estará definido sobre a idéia de movimentos de estrutura, de movimentos para a significação. A terapêutica estará definida, portanto, sobre a idéia de interpretação, que não é outra coisa senão a idéia de circulação, de movimento. A idéia de interpretação vem romper o apriorismo que caracteriza a reflexão na Clínica Fonoaudiológica, apriorismo que sempre conduz às mesmas soluções."
PALLADINO, R.R.R. Repetições: Uma nova análise. p. 665-665. Psycholinguitics on the threshold of the year 2000.
Postado por:
Dalva Daniele Vivas Mendonça
Fonoaudióloga
Por vezes, o termo "reabilitação" é aplicado com outra conotação, para explicar não um estado, como quando sinônimo de "cura", mas para denominar um processo. Assim, o significante "reabilitação" agrega um cunho de dinamicidade ao seu significado.
O conceito de cura permeia diálogos na ação e no entendimento fonoaudiológico daquilo que se compreende como "distúrbio da comunicação", e se configura a partir da distinção entre o "normal" e o "patológico" que tangem o seu objeto de estudo, a comunicação humana. Ainda, se este objeto se desloca da comunicação para o ser que se comunica, modifica-se tal distinção, e atribuem-se novas concepções para "cura".
Um distúrbio é caracterizado pela presença de um comportamento não esperado para um determinado nível maturacional do desenvolvimento da linguagem ou na ausência de comportamentos esperados para determinados estágios ou etapas deste desenvolvimento. Ao concebermos níveis maturacionais e etapas de desenvolvimento, estamos delimitando o "normal" e constituindo-o a partir de perspectivas socioculturais próprias, atribuindo, como conseqüência, ao "patológico" os comportamentos que não se encaixam dentro desta perspectiva. Concebemos saúde, doença e cura, por sua vez, a partir de limites que, de fato, não contemplam as variáveis dos sujeitos e da sua linguagem. Tantos são os comportamentos comunicativos ditos "normais", e tantas são as formas e intenções comunicativas quantos são os sujeitos.
"Em outras palavras, os conceitos clínicos carecem e merecem uma revisão. O conceito de "cura", por exemplo, estará definido sobre a idéia de movimentos de estrutura, de movimentos para a significação. A terapêutica estará definida, portanto, sobre a idéia de interpretação, que não é outra coisa senão a idéia de circulação, de movimento. A idéia de interpretação vem romper o apriorismo que caracteriza a reflexão na Clínica Fonoaudiológica, apriorismo que sempre conduz às mesmas soluções."
PALLADINO, R.R.R. Repetições: Uma nova análise. p. 665-665. Psycholinguitics on the threshold of the year 2000.
Postado por:
Dalva Daniele Vivas Mendonça
Fonoaudióloga
A influência dos serviços de saúde no processo do cuidado
Ao considerarmos os atos de saúde como um conjunto de ações, para lidar
com os fenômenos da saúde-doença, tanto no nível singular ou individual quanto
no nível coletivo, empregadas para designar práticas de saúde em geral, como
‘atenção’, ‘assistência’, ‘cuidado’, ‘intervenção’, ‘tratamento’ e ‘cura’. É possível
refletir neste sentido, como os serviços de saúde influenciam neste processo, tendo
em vista que o objeto das instituições de saúde não é a cura, ou a promoção e
proteção da saúde, mas a produção do cuidado,
através do qual poderá ser atingida a cura e a saúde.
A
prática atual dos serviços de saúde tem mostrado que conforme os modelos de atenção
que são adotados, nem sempre a produção do cuidado em saúde está comprometida efetivamente
com a cura.
Observa-se
que os serviços são organizados a partir dos problemas específicos, dentro da
ótica hegemônica do modelo médico neoliberal, e que subordina claramente a
dimensão cuidadora a um papel irrelevante e complementar sendo que ação dos
demais profissionais de uma equipe de saúde não são valorizadas e subsumidos à
lógica médica, fazendo com que a prática do cuidado seja esvaziada. Assim, a produção
de atos de saúde, a de ser atos cuidadores, mas não obrigatoriamente curadores
e promotores da saúde, é uma problemática da gestão dos processos produtivos em
saúde.
Desta
forma há de se pensar de que forma as instituições de saúde podem estar
colaborando para a produção de atos de saúde que intervenham na produção de
cuidados, levando em conta os diversos saberes, que numa lógica interativa com
o usuário possa ter como resultado a cura ou a satisfação das necessidades de
saúde do usuário, que não seja efetivamente a cura, mas que se aproxime desta
como a compensação ou estabilização do problema.
Referência:
Merhy, E. E. O ATO DE CUIDAR: a alma dos serviços de saúde. In: Saúde a Cartografia do trabalho vivo em ato, Hucitec,
São Paulo, 2007.
Postado por:
Lidiane Tereza dos Santos
Enfermeira
Postado por:
Lidiane Tereza dos Santos
Enfermeira
domingo, 4 de dezembro de 2011
A Fisioterapia em sua visão funcional: os vários determinantes em busca da cura.
O processo de cura pode ser considerado sobre vários aspectos e conceitos, sejam eles biomédicos (ainda o mais empregado), sociais e antropológicos, popular, religioso e cultural. A Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), é a classificação de componentes da saúde, definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), responsável por nortear o profissional fisioterapeuta na definição de seu diagnóstico funcional, e a partir daí traçar seu plano de tratamento ao paciente.
A Fisioterapia atua nos três níveis de atenção à saúde, visando à qualidade de vida sob o ponto de vista funcional, além da busca pelo bem estar através da recuperação ou minimização das alterações nas funções físicas e/ou mentais do indivíduo. Para tal, e com a utilização da CIF podemos identificar três vertentes para a elaboração do diagnóstico funcional, são elas: a limitação, considerada totalmente reversível; a disfunção, com reversibilidade parcial; e a incapacidade, irreversível do ponto de vista funcional. Essas definições possibilitam ao fisioterapeuta fechar um diagnóstico funcional mais preciso e consequentemente adotar medidas para o tratamento ideal ao paciente em busca da promoção, prevenção, tratamento, reabilitação e/ou cura.
O profissional Fisioterapeuta está diretamente associado ao processo de cura. Porém, não à cura no sentido da retomada ao funcionamento das ações funcionais do indivíduo do período pré-patogênese, mas ao processo terapêutico de restabelecer, adaptar e/ou habilitá-lo na busca de novas possibilidades, sobretudo, de reinserção social e retorno às atividades laborais, durante todo o ciclo de vida.
O conceito de cura deve ser percebido como objetivo específico e pessoal de cada ser humano, logo, vê-se a importância de considerar todos os aspectos individuais referentes a essa busca, visto que, em se tratando de uma mesma patologia, as limitações funcionais atingem, de forma diferenciada, as condições sociais de cada um em sua nova realidade.
Mesmo com todos os avanços tecnológicos em relação à saúde na atualidade, sabe-se que há uma gama de fatores que devem ser respeitados na busca da cura. Diante do exposto, faz-se necessário que os profissionais de saúde possam ter um olhar cada vez mais refinado sobre a saúde-doença-cuidado e cura, considerando-as em todos os seus aspectos, para que seja possível obter, cada vez mais, uma melhor definição e conhecimento para busca da cura ou minimização dos sintomas que as correlacionam.
Caroline Guerreiro & Sheila Nascimento
Fisioterapeutas
Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) – Organização Mundial de Saúde (OMS), 2001.
SAMPAIO, R. F. et al. Aplicação da CIF na prática clínica do Fisioterapeuta. Rev. Bras. Fisioter. 9(2): 129-136, 2005.
BUCHALLA, C. M. A Classificação Funcional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Acta Fisiátrica. 10(1):29-31, 2003.
FURTADO, J. P. A Fisioterapia na Saúde Mental. Fisioter mov. 8(1):13-24, 1995.
Considerando que: "o horizonte da cura
se delineia a partir de uma compreensão etiológica da doença" e levando em
conta a subjetividade da doença (no sentido da percepção pelo sujeito). Poder-se-ia
dizer que os diversos procedimentos utilizados (silicone, lipoaspiração,
rinoplastia, mudança de sexo e redução de estômago...) se encaixam nesse
construto denominado "Atos de saúde"?
Joseane Borges Nunes
Enfermeira.
Joseane Borges Nunes
Enfermeira.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Refletindo cura e cuidado.
Um outro termo que poderia ser
incluso na pesquisa está na compreensão da história do cuidar, pois quando
pensamos em cura o cuidar está intimamente relacionado, dessa forma estaríamos
preocupados não apenas em entender o que
é cura, mas quem foram os protagonistas do cuidado.
Na história do cuidar era
interessante fazer um passeio por diferentes períodos, na ancestralidade temos a mulher como figura central do
cuidado, pois são elas que cuidam dos filhos, dos doentes, posteriormente na antiguidade
encontramos o 1º código com ato do cuidar, o código de Hamurabi criado na
Mesopotâmia, já no cristianismo quem entra em cena são as freiras, que cuidam
apenas para alcançar o reino dos céus, sem querer nada em troca, e só a partir
do século XIX que se observa a criação
de várias instituições ligadas ao cuidado, ao exemplo da Fundação Cruz Vermelha
na Suíça.
A partir desse contexto seria
mais fácil compreender esses dois termos tão próximos que é cura e cuidado.
Fonte: Material disponível no
Museu Nacional de Enfermagem Anna Nery, 2011.
Fabricio – Biólogo e monitor do
Munean.
Aproximações teóricas entre a Terapia Sistêmica e os atos de saúde.
Chamemos de ‘atos de saúde’ ao conjunto de ações, reações, condutas e respostas historicamente contextualizadas, culturalmente delimitadas, socialmente legitimadas e institucionalmente organizadas para lidar com os fenômenos da saúde-doença, tanto no nível singular ou individual quanto no nível coletivo ou societal (Jucá & Almeida Filho, s/d).
Entre as concepções galênica e hipocrática sobre os atos de saúde depreende-se dois modos fundamentalmente opostos de se lidar com o fenômeno saúde-doenca: um mais intervencionista e o outro mais expectante, respectivamente. Nesse sentido, esses padrões podem ser observados em muitos modos de intervenção terapêutica. E é possível correlacionar tais concepções com dois momentos importantes na construção da Terapia Sistêmica, no campo do atendimento a famílias: a cibernética de primeira ordem e a de segunda ordem, com suas epistemologias específicas.
Uma epistemologia caracteriza-se pelo modo como o saber é estruturado, a forma de apropriação do conhecimento; profundamente influenciada por aqueles que a produzem em um determinado contexto sócio-histórico, permeado por paradigmas específicos. Desmistifica-se assim a idéia de uma ciência neutra, baseada no paradigma tradicional, na qual se julga possível distanciar o observador do objeto observado: tudo aquilo que produzimos é sempre auto-referenciado. Um paradigma é, portanto, um olhar que forma e deforma; pois ao mesmo tempo em que delimita um saber, dando-lhe consistência, limita aquele que dele se apropria e passa a não considerar tantas outras formas de ser e estar no mundo. Diante desta multiplicidade de concepções, cada escolha se vê situada no prisma de um determinado paradigma.
A construção da concepção sistêmica foi bastante corajosa ao situar seu foco de atuação no estudo das relações inter humanas (inter psíquico) como promotora dos sintomas do cliente ao passo em que o paradigma psicológico vigente era centrado no estudo do indivíduo e compreendia estes mesmos sintomas como intra-psíquicos: o nosso olhar define o tamanho do sistema que vamos vai trabalhar. Decorre deste processo que a epistemologia sistêmica pode ser configurada em dois momentos muito particulares. Rapizo (2002) situa esta mudança como tendo sido da “instrução a construção”, considerando neste recorte a postura do terapeuta sistêmico, ancorada em uma postura cibernética de primeira ordem (é necessário instruir o cliente – abordagem focada no tratamento, pautado por ações intervencionistas) ou de segunda ordem (o processo terapêutico ocorre com base no encontro entre terapeuta e cliente, na construção possível do diálogo entre estes – abordagem focada no cuidado e na relação).
Assim, no âmago do paradigma tradicional, encontra-se um movimento de especialização cada vez maior da ciência que cria a figura de poder do expert, o detentor do saber. Neste ponto, retoma-se a compreensão de Rapizo (2002) sobre a instrução, pois neste primeiro momento da epistemologia sistêmica, acreditava-se ser necessário que o terapeuta (expert das relações humanas) orientasse diretiva e claramente o cliente, neste caso a família; reconfigurando as relações de poder neste micro sistema.
Refletindo-se sobre as relações de poder estabelecidas entre terapeuta e cliente na cibernética de primeira ordem, Rapizo (2002) destaca a revolução no pensamento sistêmico que sustentou a evolução da teoria e da técnica no movimento da cibernética de segunda ordem, destacando a importância da construção ao invés da instrução. Neste período que vai até os dias atuais, há grande ênfase na importância do diálogo na sessão por orientar todo o processo terapêutico.
Compreendo que não há certo e errado entre as concepções apresentadas, mas sim a necessidade de refletir sobre a ideologia presente em cada uma delas, com vistas a solidificar uma postura profissional coerente às nossas crenças.
Rapizo, R. (2002). Terapia Sistêmica de Família: da instrução a construção. Rio de Janeiro: NOOS. 2ed.
Luane Neves
Psicóloga e mestranda do PPGPSI / UFBA
O controle que se apresenta como cuidado?
Ante a impossibilidade da cura e o processo de cronificação da doença, dois movimentos então ocorrem: por um lado, a meta da intervenção clínica passa a ser controlar sintomas e minimizar a “disfunção social” e, por outro lado, as expectativas são constantemente revistas no decorrer do tratamento de longa durabilidade. Desse modo, quase não se fala em cura e, para designar os objetivos do tratamento que surgiram em seu lugar, outros termos são utilizados, como “remissão”, “compensação” e “estabilização (Jucá & Almeida Filho, s/d).
No cotidiano do trabalho e das discussões teóricas sobre saúde mental são freqüentes as colocações que centram as intervenções “terapêuticas” no controle de sintomas e na minimização da disfunção social, como bem apresentado no capítulo que baseiam as discussões desse blog.
Muitas vezes a sensação é de que o doente mental é um perturbador da paz social, assim como sua família seja com seu desespero ou abandono. Qualidade de vida e expressão pessoal em geral não são observadas, muito menos valorizadas enquanto metas terapêuticas; e o lugar de sujeito é freqüentemente retirado, mesmo por aqueles que se esforçam para favorecer tais aspectos.
Me parece que tem algo na loucura que nos atravessa e ao mesmo tempo permanece. Às vezes essa sensação pode não ter um nome e apenas existir como algo que produz ao mesmo tempo atração e repulsa. Nesse sentido, a loucura nos convida a refletir sobre o lugar das diferenças e a tentativa de controle das mesmas por meio da normalização; pois materializa o “avesso” em uma sociedade pautada na valorização da racionalidade.
Que tipo de formação pode nos ajudar a lidar com essas sensações que a loucura evoca? Que outros paradigmas podem nos ajudar não somente a buscar diagnosticar o outro, mas estar com o outro de um ponto em que reconhece a sua existência enquanto sujeito e cidadão?
Cidadania! Tirá-la dos discursos e trazê-la para vida prática requer fundamentalmente um espaço de reconhecimento social entre as pessoas. E enquanto não conseguimos dar voz às diferenças, será que seguimos apenas nomeando as nossas tentativas de controle... remissão, compensação, estabilização?
Luane Neves
Psicóloga e mestranda do PPGPSI / UFBA
Ampliação do texto para outras áreas do conhecimento:
As concepções de saúde-doença-cuidado e as práticas de cura são formadas por um complexo de conceitos polissêmicos que não podem ser estudados de maneira isolada. Tal afirmação se faz presente, pois as questões ligadas a esses determinantes diferem muito quanto aos vários aspectos aos quais se correlacionam, e que vão desde o conceito biomédico até o cultural, passando também pelo social, antropológico, popular e religioso.
Partindo desse contexto, podemos tentar entender as diferentes e/ou semelhantes visões que podem ser observadas por cada profissional de saúde no que diz respeito às concepções referidas. Portanto, apesar do texto apresentado, e que serve de base pra a atual discussão, ter o objetivo geral de buscar definir e explicitar sobre os conceitos de saúde-doença-cuidado e cura no campo da psiquiatria e psicologia, é importante expandir esses conceitos para outras áreas de saúde, visto que a inter e multidisciplinaridade são ferramentas atuais para uma visão mais abrangente e consequentemente uma maior e melhor atenção ao indivíduo na busca da saúde num aspecto geral.
Sheila Nascimento
Fisioterapeuta
GONÇALVES, A. M. A doença mental e a cura: um olhar antropológico. Escola Superior de Enfermagem de Viseu-30 anos.
As diferentes concepções de cura:
As concepções de saúde-doença e as práticas de cura não se inserem apenas no discurso da medicina oficial dos profissionais de saúde, mas se configuram como expressões culturais próprias, nos processos de alternativas mediante mecanismos complexos, quantas vezes contraditórias, que se traduzem em respostas que contêm ao mesmo tempo aceitação, incorporação ou resistência.
As questões ligadas à saúde, a doença e ao processo de cura, enquanto fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e culturais, têm seus esquemas internos de explicação, construídos diferentemente pelo paradigma das ciências biomédicas e das ciências sociais.
Os profissionais de saúde, por motivos relacionados com a sua formação acadêmica e profissional adotam de forma privilegiada, o conceito biomédico, no qual é importante acreditar que aquilo que se estuda é fundamental para explicar a doença e promover a cura.
No entanto, a tríplice saúde, doença e cura são constructos sociais que não podem ser estudados de forma isolada, isto é, não podemos compreender as reações à doença, morte ou outros infortúnios sem compreender o tipo de cultura que determinados povos foram assimilando ao longo das gerações.
Sheila Nascimento
Fisioterapeuta
GONÇALVES, A. M. A doença mental e a cura: um olhar antropológico. Escola Superior de Enfermagem de Viseu - 30 anos.
Assinar:
Postagens (Atom)
