segunda-feira, 31 de outubro de 2011

E quando a cura não é possível? Considerações acerca do vínculo terapêutico


Na experiência de cuidar de um paciente terminal a condição dialógica assume papel fundamental já que o diálogo é o instrumento principal diante da escassez de possibilidades tecnológicas para lidar com a doença. Segundo Gadamer (1997) o  diálogo não suprime a diferença entre o cuidador e o paciente, mas pode diminuir a distância entre ambos.

Outros autores (Ayres,2007;Merhy,2009) também defendem a importância do processo dialógico como fonte para aquisição de novas competências e do desenvolvimento da autonomia por parte dos pacientes e dos familiares. Ayres pontua que as práticas humanizadoras em saúde e os processos de saúde-doença-cuidado deveriam ser vistos em termos das experiências vividas e, dessa forma, todos os protagonistas envolvidos nesse cenário teriam uma compreensão acerca do sucesso prático e não apenas do êxito técnico.

Quanto mais o cuidado se torna uma experiência de encontro, de trocas dialógicas verdadeiras, quanto mais se afasta de uma exclusiva aplicação de saberes instrumentais, mais a intersubjetividade ali experimentada retroalimenta seus participantes de novos saberes tecnocientíficos e práticos. Os participantes nessa situação são paciente, equipe e família (AYRES, 2007).


Suzane Bandeira
Psicóloga

Bibliografia:

AYRES,J.R. Norma e formação: horizontes filosóficos para as práticas de avaliação no contexto da promoção da saúde. Ciência e saúde coletiva. Rio de Janeiro: v.9n.3, p.583-592, 2004.
__________ Uma concepção hermenêutica de saúde. Physis. Rio de Janeiro: v.17,n.1, p.43-62 ,2007.
__________O cuidado, os modos de ser (do) humano e as práticas de saúde. Saúde e sociedade. São Paulo: v.13,n.3 , p.16-29, 2004.
GADAMER,H.G.Verdade e Método I – traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Trad. de Flávio Paulo Meurer. Rio de Janeiro: Ed. Vozes e São Paulo: Ed.Universitária São Francisco,1997.
________________Verdade e Método II – Complementos e índice. Trad. de Flávio Paulo Meurer. Rio de Janeiro: Ed. Vozes e São Paulo: Ed.Universitária São Francisco,2002.
_________________O caráter oculto da saúde.Trad. Antonio Luz Costa.Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2006.
MERHY,E.E. O desafio da tutela e da autonomia: uma tensão permanente do ato cuidador e Como fatiar um usuário: ATOmédico + ATOenfermagem + ATOx + .... + ATOy. Disponível em http://www.uff.br/saudecoletiva/professores/merhy/#indexados  Data de acesso em 23 de agosto de 2009

3 comentários:

  1. A construção de conceitos acerca de saúde e cura interfere diretamente no investimento do sujeito no seu processo de tratamento – investigar junto ao sujeito este processo semântico torna-se um instrumento do próprio processo de “cura”.

    Na busca pelo sentido, compreendo a “cura” enquanto processo e cuidado. A significo como processo de empoderamento do sujeito a respeito do seu próprio funcionamento. A percepção do sentido do adoecimento e como lidar com ele.

    Em Psicologia Analítica, fala-se do sentido simbólico da doença, sua finalidade e mecanismos de compensação diante do funcionamento psicodinâmico do sujeito. Essa relação pode ser feita a respeito de qualquer sintoma ou processo de adoecimento. É uma relação de funcionalidade, busca dá sentido a cada doença e abre espaço para novas realidades a respeito de si, de seu funcionamento e necessidades. A lógica sai do modelo biomédico de remissão total ou parcial dos sintomas, para uma integração destes de forma simbólica e, desta forma, outra organização geral do sujeito. Este se torna mais consciente de si, empoderado. O sujeito “curado” teria a autonomia acerca de seu sintoma, de sua dor.

    Geisa Bastos Melo
    Psicóloga
    Terapeuta Junguiana

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  2. Quando o tratamento e a cura abrem espaço ao cuidado...

    Trabalhando no contexto hospitalar, nos deparamos em muitos casos com pacientes para os quais não é possível oferecer o horizonte da cura e em que, a despeito de todo o avanço tecnológico, o tratamento não se mostra efetivo nem mesmo para controlar sintomas como dor. O que fazer nesses casos em que a atuação baseada na concepção galênica se mostra insuficiente para os dilemas vivenciados na prática?

    Esse costuma ser o tipo de situação em que somos convidados a ressignificar atos de saúde como cura e tratamento, já tão instituídos em nossas práticas profissionais como obstinações terapêuticas. Precisamente neste ponto, o cuidado que é dirigido não apenas ao corpo doente, mas sobretudo ao sujeito que expressa-se adoecido, parece ganhar força.

    São muitos os pontos de vista e observa-se, assim, que para cada compreensão teórico-profissional há visões de homem e mundo operando, que influenciam sobremaneira na micropolítica do trabalho em saúde.

    Será que abrir mais espaço para o cuidado pode “curar” algumas práticas de saúde adoecidas?

    Luane Neves
    Psicóloga e mestranda do PPGPSI / UFBA

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  3. Este é, sem dúvida, um questionamento presente e freqüente entre práticas terapêuticas, sobretudo nos casos em que o retorno ao estado anterior ao adoecimento não é possível.
    É interessante notar como esta concepção de cura, entendida como remissão de sinais indicativos da patologia/distúrbio, restabelecimento ou solução definitiva, está arraigada na cultura ocidental. Nesse sentido, o terapeuta vê-se diante do desafio de ajustar as suas expectativas, bem como as expectativas do seu paciente e família.
    Este desafio nos leva a esta ressignificação da qual se falou, acerca dos atos de saúde “cura” e “tratamento”. A cura retoma a conotação de cuidado da sua raiz etimológica, e adquire status de movimento, passando a ser compreendida enquanto processo. A cura move-se do ponto de chegada para compor, também, o caminho, até então denominado “tratamento”, fundindo-se a ele.
    E neste processo de ressignificação, as relações dialógicas emergem como fio condutor na (re)construção de redes semânticas tecidas pelo sujeito para a constituição de um discurso, de um papel social e, muitas vezes, representa a principal via de comunicação deste como o outro e com o meio.
    Concordo com Gadamer (1997) no que diz respeito ao lugar do diálogo entre paciente e terapeuta no processo de cura-cuidado. A linguagem nos aproxima, o outro nos significa em nossas expressões, quaisquer que sejam a sua natureza. Através da linguagem, o pensamento se estrutura, toma forma, ganha corpo, as emoções e os desejos desenham-se no espaço entre os sujeitos e entre eles e o meio... Através da linguagem, e o homem se faz autor da sua história, e se torna humano.

    Dalva Daniele Vivas
    Fonoaudióloga

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