quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Intensificação de cuidados em Saúde Mental.

Uma breve discussão do processo de cuidado em Saúde Mental (extrato do artigo "Intensificação de cuidados em Saúde Mental: alcances a partir de um caso clínico", apresentado no V Congresso Internacional de Saúde Mental - 2010).
[...] o processo de cuidados não se esgota, ele é contínuo e se transforma de acordo com a relação existente entre os atores envolvidos e as demandas provenientes.
As relações de cuidado, no entanto, não são tão singulares e simples. Elas se co-relacionam ao vínculo que se estabelece entre os seres. Nesse contexto, outros elementos compõem as relações de cuidado, como a disponibilidade, o interesse, a necessidade e a permissividade.
O cuidar assume suas formas possíveis somente quando a experiência do desejo, da alteridade e a questão do compartilhamento encontram-se esboçadas ainda que de modo preliminar. O cuidar implica compartilhar experiências individuais e sociais (ESTELLITA-LINS, OLIVEIRA & COUTINHO, 2009, p.211). 

Uma atuação clínica e política pautada nesses princípios possibilita alcances imprevisíveis. Ao saber de onde partimos e qual a nossa meta, vivenciar o percurso só depende de estar disponível a ele, a construir junto. Pois, acredita-se que, intensificar os cuidados em Saúde Mental é antes de tudo, se dispor a este desafio. A relação neste contexto é essencial, mas não será estruturada com base na noção de vínculo, e sim de um estado em que o terapeuta se adapta às necessidades do paciente e permite que ele o utilize como objeto subjetivo” (Winnicott, 1954, 1955, 1975 apud FURTADO & MIRANDA, 2006, p.515).
Geisa Bastos Melo - psicóloga, terapeuta junguiana, atua em CAPS e no Inst. de Cegos da Bahia.
Referências Bibliográficas:

Brasil. Ministério da Saúde. Legislação em saúde mental 1999-2001– 2. ed. Brasília: 2001( acesso em 20/03/2010);

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Mental em Dados – 6, ano IV, nº 6. Informativo eletrônico. Brasília: junho de 2009 (acesso em 20/03/2010);

ESTELLITA –LINS, Carlos; OLIVEIRA, Verônica M.; COUTINHO, Maria F. Clínica ampliada em saúde mental: cuidar e suposição de saber em acompanhamento terapêutico. Ciência e Saúde Coletiva, n.14, v.01, 2009, p.205-215;

FURTADO, Juarez P.; MIRANDA, Lílian. O dispositivo “técnicos de referência” nos equipamentos substitutivos em saúde mental e o uso da psicanálise winnicottiana. Rev. Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, ano IX, n.3, 2006, p.508-524;

MIELKE, Fernanda B; KANTORSKI, Luciane Prado; JARDIM, Vanda Maria da R.; OLSCHOWSKY, Agnes.;  MACHADO, Marlene S.  O cuidado em saúde mental no CAPS no entendimento dos profissionais. Ciência e Saúde Coletiva, n.14, v.01, 2009, p.159-164;

YASUI, Sílvio. Rupturas e encontros: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Tese de Doutorado. Ministério da Saúde, Fundação Oswaldo Cruz: Rio de Janeiro, 2006, 208 p.




Um comentário:

  1. Oi Geisa,

    Achei muito importante a discussão sobre intensificação de cuidados que você inseriu no blog. Tive a oportunidade de participar de um programa de intensificação de cuidados a pacientes psicóticos que transformou em muito a minha compreensão sobre a assistência em saúde mental. Essa experiência foi registrada em um artigo publicado na Revista Psicologia: Ciência e Profissão (2010), 30(4): pp. 882-895. Compartilho abaixo parte de nossas reflexões.

    “É preocupante a precariedade da formação dos profissionais de saúde em geral para atuar no SUS e, especificamente, no campo da saúde mental. Muitos fatores contribuem para esse processo, incluindo as deficiências nas grades curriculares e o formato dos cursos, ainda muito voltados para uma assistência privada e individualista (Campos & Guarido, 2007; Spink & Matta, 2007; Lima, 2005; Dimenstein, 1998).

    No que diz respeito à formação em Psicologia relativa ao ensino em saúde mental, as universidades ainda disponibilizam essencialmente disciplinas focadas em conceitos e diagnósticos oriundos da psicopatologia e das práticas nos hospitais psiquiátricos, em uma perspectiva reducionista que promove uma formação retrógrada em relação às novas diretrizes da reforma psiquiátrica. Tal formação apresenta o sofrimento psíquico de modo descontextualizado, restrito aos sintomas, sem oferecer os recursos técnicos exigíveis para as intervenções clínicas e institucionais. Além disso, mostra-se insuficiente para o enfrentamento dos casos de transtorno mental severo, sobretudo no que se refere especificamente ao campo da clínica das psicoses, que, em sua complexidade, convoca os profissionais para uma vivência cotidiana, profunda e instável, exigente nos aspectos formativos.

    O Programa de Intensificação de Cuidados (PIC) surgiu para se contrapor ao pensamento comumente presente de que, entre os que demandam assistência psiquiátrica, existem algumas pessoas que, em função da gravidade dos seus casos, precisam ser internadas, apostando diversamente nos investimentos de cuidados humanos como único recurso capaz de produzir transformações efetivas na vida dessas pessoas, manejando um conjunto de atitudes para que elas possam não precisar da internação.

    Silva (2007, p. 40) define a clínica da intensificação de cuidados como um conjunto de procedimentos terapêuticos e sociais direcionados ao indivíduo e/ou ao seu grupo social mais próximo, visando ao fortalecimento dos vínculos e à potencialização das redes sociais de sua relação bem como ao es¬tabelecimento destas nos casos de desfiliação ou forte precarização dos vínculos que lhes dão sus¬tentação na sociedade”.

    Luane Neves
    Psicóloga e mestranda do PPGPSI / UFBA

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