quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O controle que se apresenta como cuidado?

Ante a impossibilidade da cura e o processo de cronificação da doença, dois movimentos então ocorrem: por um lado, a meta da intervenção clínica passa a ser controlar sintomas e minimizar a “disfunção social” e, por outro lado, as expectativas são constantemente revistas no decorrer do tratamento de longa durabilidade. Desse modo, quase não se fala em cura e, para designar os objetivos do tratamento que surgiram em seu lugar, outros termos são utilizados, como “remissão”, “compensação” e “estabilização (Jucá & Almeida Filho, s/d).

No cotidiano do trabalho e das discussões teóricas sobre saúde mental são freqüentes as colocações que centram as intervenções “terapêuticas” no controle de sintomas e na minimização da disfunção social, como bem apresentado no capítulo que baseiam as discussões desse blog.
Muitas vezes a sensação é de que o doente mental é um perturbador da paz social, assim como sua família seja com seu desespero ou abandono. Qualidade de vida e expressão pessoal em geral não são observadas, muito menos valorizadas enquanto metas terapêuticas; e o lugar de sujeito é freqüentemente retirado, mesmo por aqueles que se esforçam para favorecer tais aspectos.
Me parece que tem algo na loucura que nos atravessa e ao mesmo tempo permanece. Às vezes essa sensação pode não ter um nome e apenas existir como algo que produz ao mesmo tempo atração e repulsa. Nesse sentido, a loucura nos convida a refletir sobre o lugar das diferenças e a tentativa de controle das mesmas por meio da normalização; pois materializa o “avesso” em uma sociedade pautada na valorização da racionalidade.
Que tipo de formação pode nos ajudar a lidar com essas sensações que a loucura evoca? Que outros paradigmas podem nos ajudar não somente a buscar diagnosticar o outro, mas estar com o outro de um ponto em que reconhece a sua existência enquanto sujeito e cidadão?
Cidadania! Tirá-la dos discursos e trazê-la para vida prática requer fundamentalmente um espaço de reconhecimento social entre as pessoas. E enquanto não conseguimos dar voz às diferenças, será que seguimos apenas nomeando as nossas tentativas de controle... remissão, compensação, estabilização?
Luane Neves
Psicóloga e mestranda do PPGPSI / UFBA

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