Chamemos de ‘atos de saúde’ ao conjunto de ações, reações, condutas e respostas historicamente contextualizadas, culturalmente delimitadas, socialmente legitimadas e institucionalmente organizadas para lidar com os fenômenos da saúde-doença, tanto no nível singular ou individual quanto no nível coletivo ou societal (Jucá & Almeida Filho, s/d).
Entre as concepções galênica e hipocrática sobre os atos de saúde depreende-se dois modos fundamentalmente opostos de se lidar com o fenômeno saúde-doenca: um mais intervencionista e o outro mais expectante, respectivamente. Nesse sentido, esses padrões podem ser observados em muitos modos de intervenção terapêutica. E é possível correlacionar tais concepções com dois momentos importantes na construção da Terapia Sistêmica, no campo do atendimento a famílias: a cibernética de primeira ordem e a de segunda ordem, com suas epistemologias específicas.
Uma epistemologia caracteriza-se pelo modo como o saber é estruturado, a forma de apropriação do conhecimento; profundamente influenciada por aqueles que a produzem em um determinado contexto sócio-histórico, permeado por paradigmas específicos. Desmistifica-se assim a idéia de uma ciência neutra, baseada no paradigma tradicional, na qual se julga possível distanciar o observador do objeto observado: tudo aquilo que produzimos é sempre auto-referenciado. Um paradigma é, portanto, um olhar que forma e deforma; pois ao mesmo tempo em que delimita um saber, dando-lhe consistência, limita aquele que dele se apropria e passa a não considerar tantas outras formas de ser e estar no mundo. Diante desta multiplicidade de concepções, cada escolha se vê situada no prisma de um determinado paradigma.
A construção da concepção sistêmica foi bastante corajosa ao situar seu foco de atuação no estudo das relações inter humanas (inter psíquico) como promotora dos sintomas do cliente ao passo em que o paradigma psicológico vigente era centrado no estudo do indivíduo e compreendia estes mesmos sintomas como intra-psíquicos: o nosso olhar define o tamanho do sistema que vamos vai trabalhar. Decorre deste processo que a epistemologia sistêmica pode ser configurada em dois momentos muito particulares. Rapizo (2002) situa esta mudança como tendo sido da “instrução a construção”, considerando neste recorte a postura do terapeuta sistêmico, ancorada em uma postura cibernética de primeira ordem (é necessário instruir o cliente – abordagem focada no tratamento, pautado por ações intervencionistas) ou de segunda ordem (o processo terapêutico ocorre com base no encontro entre terapeuta e cliente, na construção possível do diálogo entre estes – abordagem focada no cuidado e na relação).
Assim, no âmago do paradigma tradicional, encontra-se um movimento de especialização cada vez maior da ciência que cria a figura de poder do expert, o detentor do saber. Neste ponto, retoma-se a compreensão de Rapizo (2002) sobre a instrução, pois neste primeiro momento da epistemologia sistêmica, acreditava-se ser necessário que o terapeuta (expert das relações humanas) orientasse diretiva e claramente o cliente, neste caso a família; reconfigurando as relações de poder neste micro sistema.
Refletindo-se sobre as relações de poder estabelecidas entre terapeuta e cliente na cibernética de primeira ordem, Rapizo (2002) destaca a revolução no pensamento sistêmico que sustentou a evolução da teoria e da técnica no movimento da cibernética de segunda ordem, destacando a importância da construção ao invés da instrução. Neste período que vai até os dias atuais, há grande ênfase na importância do diálogo na sessão por orientar todo o processo terapêutico.
Compreendo que não há certo e errado entre as concepções apresentadas, mas sim a necessidade de refletir sobre a ideologia presente em cada uma delas, com vistas a solidificar uma postura profissional coerente às nossas crenças.
Rapizo, R. (2002). Terapia Sistêmica de Família: da instrução a construção. Rio de Janeiro: NOOS. 2ed.
Luane Neves
Psicóloga e mestranda do PPGPSI / UFBA
Realmente parece ser de fundamental importância compreender os paradigmas e ideologias que influenciam nossa postura profissional. Gadamer propõe uma abertura ao horizonte do outro para um melhor entendimento e comunicação. Quando essa abertura existe, talvez fique mais fácil para o profissional perceber a necessidade do paciente na sua frente (se ele precisa ser mais intervencionista, mais expectante, mais objetivo,etc.). A abertura ao horizonte do outro permite que possamos olhar para nossas crenças e ideologias de forma crítica e sem verdades absolutas.
ResponderExcluirSuzane Bandeira
Psicóloga