Os termos "cura" e "reabilitação" são comumente utilizados como sinônimos na prática fonoaudiológica, sobretudo na prática terapêutica, mais atrelada ao percurso doença-saúde que a sua antecessora, a prática diagnóstica, aluna aplicada na investigação e detecção dos processos ou dos percursos de saúde-doença.
Por vezes, o termo "reabilitação" é aplicado com outra conotação, para explicar não um estado, como quando sinônimo de "cura", mas para denominar um processo. Assim, o significante "reabilitação" agrega um cunho de dinamicidade ao seu significado.
O conceito de cura permeia diálogos na ação e no entendimento fonoaudiológico daquilo que se compreende como "distúrbio da comunicação", e se configura a partir da distinção entre o "normal" e o "patológico" que tangem o seu objeto de estudo, a comunicação humana. Ainda, se este objeto se desloca da comunicação para o ser que se comunica, modifica-se tal distinção, e atribuem-se novas concepções para "cura".
Um distúrbio é caracterizado pela presença de um comportamento não esperado para um determinado nível maturacional do desenvolvimento da linguagem ou na ausência de comportamentos esperados para determinados estágios ou etapas deste desenvolvimento. Ao concebermos níveis maturacionais e etapas de desenvolvimento, estamos delimitando o "normal" e constituindo-o a partir de perspectivas socioculturais próprias, atribuindo, como conseqüência, ao "patológico" os comportamentos que não se encaixam dentro desta perspectiva. Concebemos saúde, doença e cura, por sua vez, a partir de limites que, de fato, não contemplam as variáveis dos sujeitos e da sua linguagem. Tantos são os comportamentos comunicativos ditos "normais", e tantas são as formas e intenções comunicativas quantos são os sujeitos.
"Em outras palavras, os conceitos clínicos carecem e merecem uma revisão. O conceito de "cura", por exemplo, estará definido sobre a idéia de movimentos de estrutura, de movimentos para a significação. A terapêutica estará definida, portanto, sobre a idéia de interpretação, que não é outra coisa senão a idéia de circulação, de movimento. A idéia de interpretação vem romper o apriorismo que caracteriza a reflexão na Clínica Fonoaudiológica, apriorismo que sempre conduz às mesmas soluções."
PALLADINO, R.R.R. Repetições: Uma nova análise. p. 665-665. Psycholinguitics on the threshold of the year 2000.
Postado por:
Dalva Daniele Vivas Mendonça
Fonoaudióloga
É porisso que muitas vezes ao buscarmos outras ciências para o entendimento dos conceitos ajuda nessa relativização. A antropologia nos ajuda a olhar o mundo tentando desnaturalizar os conceitos e fugir à ideia de desvio e de desviante. O que é "normal" para alguns só o é por estar inserido dentro de um contexto sócio-econômico-político...dessa forma, o que é normal para uma população pode não ser em outro ambiente, com outras pessoas. Parece que a interpretação realmente traz a ideia de movimento e também traz a abertura ao outro, fator essencial para o entendimento dos conceitos e para uma terapeutica mais adequada.
ResponderExcluirSuzane Bandeira
Psicóloga
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ResponderExcluirAcrescento a relevante postagem, uma prática que também é vivenciada por outra especialidade, no caso a Enfermagem. Onde cabe ao enfermeiro dentro da sua formação, habilidades e competências, avaliar clinicamente, intervir e acompanhar os resultados, ou seja, acompanhar a evolução dos pacientes com deficiências físicas e incapacidade.
ResponderExcluirO paciente com Distúrbio da Comunicação seja na linguagem ou na aprendizagem, necessita de uma equipe multiprofissional, para que possam viver com dependência mínima e sejam produtivos. A comunicação serve como um alicerce nas relações entre os profissionais e entre estes e os pacientes, através dos vínculos é possível falar em recuperação, pois os pacientes interagem e diante dos distúrbios da comunicação, rompem as barreiras existentes
Observa-se que a comunicação é considerada a principal ferramenta para que haja a troca de saberes, facilitando a interação e o relacionamento dos profissionais de saúde com os usuários.
Sendo assim, o profissional de enfermagem é um membro atuante em prol da promoção, recuperação e reabilitação da saúde e participa de ações que satisfazem as necessidades de saúde da população, em consonância com os princípios defendidos pelo SUS, já que defende os princípios da universalidade de acesso aos serviços de saúde, integralidade da assistência, além de resolutividade, preservação da autonomia das pessoas, participação da comunidade, hierarquização e descentralização político-administrativa dos serviços de saúde.
FARO, Ana Cristina Mancussi e. Enfermagem em Reabilitação: ampliando os horizontes, legitimando o saber. Rev. esc. enferm. 2006, vol.40, n.1, p. 128-133. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0080-62342006000100019&scripti_arttext. Acesso: 08 dez. 2011
Enfermeira Laudicéia da Paixão Santos