segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A influência dos serviços de saúde no processo do cuidado

Ao considerarmos os atos de saúde como um conjunto de ações, para lidar com os fenômenos da saúde-doença, tanto no nível singular ou individual quanto no nível coletivo, empregadas para designar práticas de saúde em geral, como ‘atenção’, ‘assistência’, ‘cuidado’, ‘intervenção’, ‘tratamento’ e ‘cura’. É possível refletir neste sentido, como os serviços de saúde influenciam neste processo, tendo em vista que o objeto das instituições de saúde não é a cura, ou a promoção e proteção da saúde, mas a produção do cuidado, através do qual poderá ser atingida a cura e a saúde.
A prática atual dos serviços de saúde tem mostrado que conforme os modelos de atenção que são adotados, nem sempre a produção do cuidado em saúde está comprometida efetivamente com a cura.

Observa-se que os serviços são organizados a partir dos problemas específicos, dentro da ótica hegemônica do modelo médico neoliberal, e que subordina claramente a dimensão cuidadora a um papel irrelevante e complementar sendo que ação dos demais profissionais de uma equipe de saúde não são valorizadas e subsumidos à lógica médica, fazendo com que a prática do cuidado seja esvaziada. Assim, a produção de atos de saúde, a de ser atos cuidadores, mas não obrigatoriamente curadores e promotores da saúde, é uma problemática da gestão dos processos produtivos em saúde.

Desta forma há de se pensar de que forma as instituições de saúde podem estar colaborando para a produção de atos de saúde que intervenham na produção de cuidados, levando em conta os diversos saberes, que numa lógica interativa com o usuário possa ter como resultado a cura ou a satisfação das necessidades de saúde do usuário, que não seja efetivamente a cura, mas que se aproxime desta como a compensação ou estabilização do problema.


Referência:
Merhy, E. E. O ATO DE CUIDAR: a alma dos serviços de saúde. In: Saúde  a Cartografia do trabalho vivo em ato, Hucitec, São Paulo, 2007.


Postado por:

Lidiane Tereza dos Santos
Enfermeira

3 comentários:

  1. Em adição ao que foi abordado na postagem de Lidiane, observo que, através de leituras realizadas sobre a historicidade da construção do Sistema Único de Saúde, o Movimento da Reforma Sanitária, cuja consolidação ocorreu em meados da década de 1970, foi fruto de um pensar crítico a cerca da política de saúde hegemônica naquela época. Tal modelo assistencial vigente nas décadas de 60 e 70, caracterizado como puramente curativista e medicalocêntrico, tem a doença como ponto objeto de suas intervenções e, mesmo diante de tantas inovações propostas pela Reforma Sanitária e, a posteriori, pela 8a Conferência de Saúde e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o modelo curativista ainda persiste até os dias atuais como dominante. Tem-se assim como conseqüência um tratamento visando obter a cura através do uso de medicamentos e de intervenções médicas, sem procurar avaliar os fatores socioeconômicos e culturais que desencadearam a manifestação de uma dada patologia e que levaram o indivíduo a ir à instituição de saúde em busca de atendimento. Muitas vezes, o sintoma que tal indivíduo está apresentando naquele momento se caracteriza mais por um problema social, que pode ser amenizado através de uma conversa e, assim, fazer com que essa pessoa se sinta mais reconfortada e aquele sintoma inicial desapareça. Por isso, considero que devemos reavaliar, como profissionais de saúde, de que forma estamos lhe dando com a população que comparece a uma dada instituição de saúde em busca de atendimento, ou seja, haver uma análise multiprofissional sobre as diversas faces que compõem o ser. Faz-se necessário ter um olhar mais aprofundado do indivíduo, através de uma abordagem bio-psicossocial e cultural, ao invés de enxergá-lo como meramente um ser isento de doenças.

    Vanessa Rocha
    Enfermeira

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  2. Merhy (2009) refere a respeito de um ato médico ritualizado, fetichizado e repetitivo como sendo impossibilitador da construção da autonomia por parte do paciente. Segundo ele, os saberes profissionais partidos fabricam um usuário, fatiado, para si; Porém, em um modelo mais integralizado, o usuário poderia se impôr como ordenador do encontro entre profissionais e saberes surgindo daí caminhos para repensar novas lógicas. Franco (2002) também refere à importância do processo dialógico como fonte para aquisição de novas competências e do desenvolvimento da autonomia. Os autores referidos no seu trabalho – Freire, Buber e Gadamer – propõem a prática da dialogia e da parceria. Segundo Franco “O comportamento dialógico se dá no domínio inter-humano e consiste na possibilidade dos membros de uma relação reconhecerem-se enquanto influenciadores mútuos” (FRANCO,2002).
    AYRES (2007) em um artigo sobre a concepção hermenêutica da saúde refere que esse trinômio saúde-doença-cuidado devem ser vistos em termos das experiências vividas pelas pessoas e propõe que a estratégia conceitual das ciências biomédicas possam ser revistas por meio de práticas humanizadoras em saúde. Dessa forma, todos os envolvidos seriam mais sensíveis, críticos e responsivos aos sucessos práticos (e não apenas ao êxito técnico).
    Ele trata saúde e doença como instâncias diferentes e faz críticas à visão segmentada, a uma abordagem centrada na doença, à pobreza na interação médico-paciente e o fraco compromisso com o bem estar do paciente. A polarização existente entre os da doença e os da saúde não parece possibilitar uma reflexão mais profunda sobre esses temas. Falar sobre saúde não é igual a falar sobre não-doença e falar sobre doença não equivale falar de não-saúde (AYRES, 2007).
    O centro da mudança paradigmática tem sido falado com os mais diversos sinônimos: humanização em saúde, promoção da saúde, medicina centrada no paciente, dentre outros. Porém para que essa mudança se efetive é preciso ser revisto a conceituação biomédica de doença (doença = não saúde) e entender que saúde e doença não falam da mesma coisa, nem do mesmo modo (IDEM).
    AYRES,J.R. Uma concepção hermenêutica de saúde. Physis.v.17,n.1,Rio de Janeiro,2007.
    FRANCO, A.L.S. A relação médico-paciente no contexto do programa de saúde da família. Um estudo observacional em três municípios baianos. Tese de doutourado. ISC/ UFBA, 2002.
    MERHY,E.E. O desafio da tutela e da autonomia: uma tensão permanente do ato cuidador e Como fatiar um usuário....em http://www.uff.br/saudecoletiva/professores/merhy/#indexados Data de acesso em 23 de agosto de 2009

    Suzane Bandeira
    Psicóloga

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  3. Atualmente se observa cada vez mais um maior investimento na qualificação da atenção em saúde, para tal o mesmo acontece no âmbito da atenção básica.
    A família é considerada núcleo fundamental nas práticas de saúde no Brasil, tendo como vertente a prevenção e a promoção em saúde, dessa forma o Sistema Único de Saúde(SUS) está cada vez mais voltado para os processos do cuidado, em consequência, o cuidado está intimamente ligado aos processos de cura.

    Fabricio Soares
    Biólogo

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